quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Sem ambulância e médico, homem é socorrido por carro do lixo em Acarape

"Eu posso dizer que meu irmão foi morto por irresponsabilidade do hospital de Acarape. Ainda levaram ele para Redenção, mas quando chegou, foi sem jeito. O Acarape não está com nada". O desabafo foi feito pela irmã do gari aposentado Antônio Alves da Silva (62), falecido na última segunda-feira (5), após buscar atendimento no Hospital Municipal de Acarape, no Maciço de Baturité. O socorro tardio foi prestado por um caminhão de lixo que passava no entorno do imóvel onde o idoso morava com a família. Não havia ambulância na unidade para sair com o paciente, que morreu a caminho do Hospital e Maternidade Paulo Sarasate, em Redenção, município vizinho. A filha de Antônio Alves conta que o pai precisava ir ao hospital frequentemente, por conta de um enfisema pulmonar. "Lá [no hospital] conheciam o problema dele", relembra a familiar, que ressalta os medicamentos e uso de bombinha utilizados pelo paciente. "Quando ele tinha crise, tomava a medicação, mas não servia, então era levado para o hospital", explica. 
Diana Alves, esposa do aposentado, teria ido ao Hospital Municipal de Acarape, mas foi informada que não tinha carro disponível para resgatar o paciente em casa. Ao regressar, percebeu que o marido tinha piorado e decidiu insistir, desta vez por telefone, "Ela [esposa] ligou para o Hospital e disseram que os médicos estavam trocando o plantão. Depois saiu, procurando carro na rua, mas não encontrou ninguém que ajudasse. Meu irmão estava sentado e viu o caminhão do lixo passando, correu e conseguiu o socorro", relata a irmã do gari. 
O caminhão levou a vítima para o Hospital Municipal de Acarape, popularmente conhecido como "Doutorzão", mas como o médico plantonista tinha saído e o outro ainda não tinha chegado para trabalhar, decidiram seguir para Redenção. O idoso, entretanto, morreu a caminho. Na unidade, disseram para os familiares que Antônio sofreu um infarto. 
O que diz a Secretaria Municipal de Saúde de Acarape? 
Em nota, a pasta informou que o município dispõe de três ambulâncias para atender aos moradores, mas todas estavam em outras ocorrências no momento em que o aposentado precisava ser socorrido. A Secretaria ressalta não ser obrigação da Prefeitura de Acarape fazer o resgate em domicílio, mas o faz por entender que os pacientes não possuem veículos próprios. Sobre o transporte em um caminhão do lixo, a pasta informou que o resgate foi feito "por solicitação dos familiares e não por ordem da Secretaria de Saúde". 
A nota, assinada pela titular da pasta, Karine Bezerra, conta que o paciente era portador de doença crônica e grave, chegando ao hospital em estado grave. Por fim, sobre a ausência de atendimento, a Secretaria afirma que: "O médico saiu sem esperar que o outro médico, que estava atrasado, chegasse. Isso representa infração ética e estamos abrindo processo administrativo disciplinar para investigar o fato. Caso seja constatado negligência dos médicos plantonistas, ambos sofrerão sanções administrativas". 
Não é a primeira vez
Em abril do ano passado, familiares de um idoso de 69 anos denunciaram que um homem passou mal, sofreu convulsão e não teve atendimento na mesma unidade. A Secretaria de Saúde, por sua vez, negou a versão, afirmando que o homem foi acompanhado por um médico que concluíu que o "paciente não estava com sintomas de convulsão, mas com hipoglicemia".

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