AVIFAUNA | Especulação imobiliária, degradação de áreas verdes, construção em áreas litorâneas, abandono de bichos domésticos ameaçam as aves
"A população de aves em Fortaleza já decaiu em mais de 30% nos últimos 30 anos", alerta Roberto Otoch, diretor da Divisão de Biodiversidade da Estação de Desenvolvimento Ambiental Sustentável da Universidade Estadual do Ceará (Uece), em Pacoti. Atualmente, Fortaleza tem o oitavo menor número de registros de espécies de aves entre as capitais do País. De acordo com o pesquisador, ao passo que enquanto algumas espécies, que se adaptam e se beneficiam com as degradações, têm aumentado o número de indivíduos, populações inteiras sumiram da Cidade. E isso é sinal de desequilíbrio ambiental.
"Há aves silvestres que conseguem sobreviver diante de um antropismo forte das cidades, existem espécies que quanto mais degrado o ambiente, mais elas aumentam a população, porque elas são espécies de ambiente aberto, não florestais", conta. Otoch cita bem-te-vi, rolinha, sanhaço, anum preto, e algumas marrecas como exemplo, além de aves sinantrópicas como pardais e pombos."O sabiá branco, que é um bioindicador no litoral de cobertura de duna, a população já está entrando em declínio, devido a ocupação do litoral, principalmente na área de Fortaleza. Jacus, nambus, gaviões grandes estão ficando sem espaço; colhereiro, que tinha muito no mangue da Barra do Ceará, e guará foram praticamente extintos dos manguezais", descreve. Para ele, o excesso de movimento humano e a retirada de cobertura verde afugenta os animais.
Ornitóloga, bióloga e coordenadora da educação ambiental do Parque do Cocó, Cecília Licarião aponta que "a principal causa de ameaça de aves no mundo é a perda de habitat". "As áreas estão sendo degradadas de tal forma que não tem recurso suficiente para todos, principalmente relacionado à reprodução. Muitos se reproduzem em árvores ocadas que precisam de diâmetro e tempo", indica. Otoch cita a construção de barracas de praia nos litorais e a não inclusão de zonas de amortecimento na demarcação recente do Cocó, como exemplos desta degradação em Fortaleza.
"Isso afeta tremendamente o ecossistema litorâneo. Precisamos ter parques naturais dentro da própria Cidade. Ambiente naturais estão sendo arrebentados pela especulação imobiliária", critica Otoch. Para o professor da Uece e ornitólogo Luís Gonzaga Sales Júnior a fragmentação de ambiente de mata preservada se dá, principalmente devido a especulação imobiliária. "Têm de ser feitas as construções, mas é preciso também partilhar isso com o meio ambiente. Os empreendimentos têm por costume destruir todas as árvores, aí faz o edifício e depois coloca planta por paisagismo. Em vez de planejar e retirar só de onde vai ficar o prédio, e no restante do espaço criar alternativas sem retirar as plantas", sugere.
Licarião cita um segundo problema: espécies domésticas, como gatos e cachorros, abandonadas. "Aqui no Parque (do Cocó) não tem nenhuma semana que não tire um passarinho da boca de uma gato. Hoje, o parque é um unidade de conservação e por lei não são permitidos animais doméstico abandonados, mas o que a gente vai fazer? Onde coloca (os gatos abandonados)? Tem um problema grande que as pessoas acham que podem abandonar, mas é preciso entender que é crime", salienta. Hoje, são contabilizados cerca de 130 gatos dentro e fora das trilhas do Cocó. "Eles (os gatos) estão predando a fauna violentamente. Não é nossa intenção matar os bichos, mas eles precisam ser retirados da natureza", reforça Otoch.
Sales Junior ainda indica a caça como outro fator na diminuição da aves.
"Golinha, papa-capim, azulão, bigodeiro, que são aves que cantam, são muito visadas para vender nas feiras. Canário quase não se vê mais pelo mesmo motivo", lamenta. Vidraças de prédios também são apontadas por Luiz Fernando Figueiredo, observador amador de aves e primeiro-secretário do Centro de Estudos Ornitológicos (CEO), como um problema para aves em ambiente urbano, por criarem obstáculos que, como não são visualizados pelos pássaros, acabam gerando colisões. (Domitila Andrade) via: o povo
