Falta de boas condições de trabalho, longas jornadas e "cultura da violência" são empecilhos para bom desempenho da PM, diz Direitos Humanos da OAB
Uma mãe de família morta na frente da filha, uma criança morta durante uma busca em uma casa na periferia, um cabo da Polícia Militar morto por colegas de farda e um adolescente agredido durante uma abordagem, são algumas das polêmicas em que a corporação se envolveu este ano. Especialistas escutados pelo Cnews acreditam que a má formação e a desvalorização da categoria fortalecem o aumento de ações desastrosas da Polícia no Ceará.
"A Academia [Estadual de Segurança Pública] é um período muito rápido de formação. Como existe uma carência de policiais na rua, o tempo de curso é muito pequeno e não existe uma reciclagem constante", explica o advogado criminalista Cláudio Justa. "Além do despreparo existe a cultura da violência sendo reproduzida. O discurso é que o problema da segurança se resolve com violência policial, quando sabemos que existe algo maior por trás. Sem falar que esses profissionais são submetidos a longas jornadas de trabalho, com más condições e baixa remuneração", completa o presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem de Advogados do Brasil (OAB-CE), Deodato Neto.
"A pressão psicológica em qualquer situação tende a fazer com o sujeito perca sua capacidade de racionalidade sendo mais facilmente tomado pelas emoções e consequentemente reagindo a elas sem compreender o conteúdo que chega, sendo apenas o instinto pelo instinto. Quanto a má formação, vivemos em âmbito global, um momento em que as universidades e cursos de formação se prendem somente a uma práxis pragmática e tradicionalista, não dando conta da real necessidade que cada profissional terá no seu dia a dia. Agora imagina a combinação explosiva de má formação e pressão psicológica? Imaginou? É exatamente isso que temos observado principalmente em profissões onde se lida diretamente com o humano, vemos profissionais sem qualificação e despreparados psicologicamente para lidar com as reações adversas", explica a psicóloga Luma Diógenes.
Segundo Deodato Neto, o fator psicológico, associado ao fortalecimento das facções e do discurso de ação ofensiva, são determinantes para desfechos negativos nas abordagens e operações. "O discurso 'faca na caveira' reforça muito o ânimo de sempre agir de forma violenta", diz o advogado. "Essa lógica do policial que está sempre pronto para o combate, é estimulada pela própria segurança pública", completa. Deodato afirma que os Direitos Humanos entendem que os policiais tem poder para reagir com violência, mas isto deve acontecer apenas quando existir real necessidade. "O discurso que os Direitos Humanos são contrários à segurança é uma falácia. A própria polícia é agente reguladora destes direitos. A função dela é resguardar a população", explica.
"Os Direitos Humanos acabam ganhando mais visibilidade em casos de ações policiais, como a tortura do adolescente ontem, por serem crimes que acontecem com a população mais vulnerável e que não conhece seus direitos. Quando os policiais sofrem algum tipo de ataque, por exemplo, a família pode procurar as comissões de Direitos Humanos, mas eles também têm apoio de associações representativas, diferente dessas pessoas que moram na periferia", disse Deodato. Ainda segundo o presidente, as duas ações registradas nas últimas 24 horas ganharam notoriedade por uma delas ser filmada e a outra envolver um policial militar. "Mas isso acontece todo dia. As invasões policiais sem nenhum tipo de mandado, como a que foi registrada ontem, é uma volta à idade média, aos tempos de bárbarie", disse.
O criminalista Cláudio Justa acredita que os policiais militares não foram preparados para as ameaças impostas pelo crime organizado: "O que estamos assistindo hoje é o aumento do efetivo, coletes, armamento e viaturas, mas o investimento não correspondeu ao número de crimes, que só aumentou. Você não tinha essa demanda de efetivo. De repente, teve esse crescimento gigantesco no número de homicídios e o governo teve que agir aumentando o efetivo rapidamente, sem preparo necessário destes profissionais". via :cnews
